Carta ao Presidente

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Carta ao Presidente

Por Zander Soares De Navarro

Ilustre Senhor Presidente Maurício Lopes,

Exerço a democrática liberdade de lhe escrever. Espero que possa reservar alguns minutos para refletir sobre os argumentos abaixo – o que me honraria imensamente. Inicialmente pensei enviar uma carta pessoal. Mas são assuntos institucionais de interesse coletivo e concluí que seria, sobretudo, ético compartilhar com todos os colegas empregados.

Venho insistindo – ante o nosso atual cul-de-sac institucional – que a Embrapa precisa mudar com urgência, mas, se o fizer, somente será uma ação genuína e consequente se for movida pelo comprometimento de todos. Dificilmente mudaremos para melhor com propostas de reestruturação como a mais recente, imposta sem a cumplicidade participativa do corpo de funcionários, inclusive ignorando a intensa contribuição generosamente oferecida nos últimos dois anos por grupos de empregados de inúmeras unidades.

Por isso, respeitosamente, torno pública esta mensagem, na qual comento sobre a nossa organização e, portanto, deve ser manifestação aberta, sem peias, expondo irrestritamente os nossos desafios atuais. Na sua condição de primeiro e legítimo mandatário da Embrapa, necessariamente é o interlocutor imediato, no tocante aos temas abaixo tratados. Meu objetivo é submeter uma pergunta, no final, após o arrazoado que segue.


Inicialmente, parto de um pressuposto que o Senhor refuta em público, embora seja empiricamente inegável. A Embrapa, em nossos dias, vive um perigoso estado de pré-crise e, inquietos, estamos apenas à espera de um “fator detonador” que fará a crise explodir com todas as suas cores e luzes. Uma redução do orçamento poderá ser esse fator, como ilustração. Sem a sua concordância prévia acerca desse pressuposto, logicamente esgota-se o campo possível da argumentação, pois continuaríamos sob o domínio do autoengano.

A seguir, um segundo passo é explicar como concretizamos ao longo da história o pressuposto acima referido e, para isso, ofereço uma síntese “desesperadamente breve” sobre o período recente vivido pela Embrapa. São os últimos vinte anos, durante os quais o Senhor sempre integrou a “camada dirigente” e, portanto, é também responsável por esse curso dos acontecimentos, embora com justiça ressalte-se que nunca tenha sido uma responsabilidade única ou exclusiva. A crise atual da Embrapa decorre, sucintamente, de quatro fatores principais:

(a) o nascimento da “Embrapa corporativa” e a consequente centralização burocrática na Sede, com seus imparáveis mecanismos de cerceamento da pesquisa. Ao mesmo tempo, tal centralização estiolou gradativamente o protagonismo das UDs (quando esse existia) na vida real da produção. O fato também enraizou o autoritarismo interno, bloqueou formas de diálogo e criou apenas “espaços fantasia” de conselhos, pois nenhum deles, de fato, detém significativo poder decisório. Tudo se enfeixou, cada vez mais, em torno da Presidência, o que é inacreditável, considerando ser a Embrapa uma organização complexa com capilaridade nacional, vinculada a um Estado democrático. A Sede, em termos práticos, se tornou “a Embrapa fora da Embrapa”, foi se desgarrando (do mundo real), como uma estrela isolada e solta, voltada apenas para si mesma. A Sede é uma chocante anomalia: uma burocracia relativamente autônoma do Estado, capturada por uma camada dirigente que não presta contas adequadamente, embora sustentada com recursos públicos. Sejamos diretos: à luz das promessas democratizantes da Constituição de 1988, a estrutura decisória da Embrapa é nitidamente anacrônica – quem, e quando, fará a sua reforma?

(b) o segundo grande erro (monumental erro) foi a instituição dos macroprogramas, ainda naqueles anos próximos à virada do século. Foi um erro porque foram linearizados, com o mesmo peso, simultaneamente, projetos “complexos” (MP1) e projetos em campos que sequer existem cientificamente, como “agricultura familiar” (MP6). A consequência, com o passar dos anos, foi trágica, pois foi transformando a Embrapa em uma típica universidade federal – cada um faz o que quer, com projetos sob qualquer foco temático, desde os mais ambiciosos até os mais minúsculos, do ponto de vista agronômico. Vale tudo e, para uma empresa que nasceu orientada para produzir “pesquisa aplicada com resultados”, essa transformação tem sido quase uma sentença de morte. Fomos perdendo a orientação mais prática e convergente com as realidades rurais e passamos a caminhar, cada vez mais, na direção das platitudes estratosféricas e a uma absurda fragmentação. Os macroprogramas, que o Senhor conhece tão bem, representam “o ponto zero” da decadência da Empresa, pois bloquearam rigidamente qualquer chance de construir uma estratégia institucional real, concreta;

(c) o fato acima foi profundamente reforçado pela “substituição de 70% dos pesquisadores” durante o mesmo período, através dos sucessivos concursos, mudança que, inacreditavelmente, a Embrapa procedeu sem realizar nenhuma transição entre a “geração pioneira” e a “geração nova” que entrou. Não realizar esta transição foi um dos gestos mais espantosos, um desastre administrativo gigantesco. A geração de pesquisadores entrantes, em sua maioria, pouco tem a ver com a história rural brasileira (pois é uma vasta maioria de extração urbana) e, menos ainda, com a épica e bem sucedida história da primeira parte da Embrapa, e apenas reforçou o que sabe fazer, pois foram assim formados. Ou seja, agir em função unicamente de seus currículos, apenas isso, pois não percebem a Embrapa como uma organização de pesquisa pública “a favor da agropecuária”;

(d) finalmente, o quarto fator, essencial e crucial, que igualmente causa pasmo, é a “fuga da realidade”. Sobre o tema geral tenho livros escritos e poderia me estender por páginas e páginas. Mas sintetizarei em uma frase. Trata-se da espetacular transformação produtiva da agropecuária brasileira, desencadeada a partir do final da década de 1990, mudanças que, até hoje, a Embrapa se recusa a fazer qualquer esforço sério de interpretação analítica, pois se sente confortável em ficar repetindo ou os “mantras do passado” ou as fantasias da “agricultura do futuro” (ou seja, o presente desaparece sob esta antinomia). Venho cobrando esta reflexão há um bom tempo, sem sucesso. Nenhuma lógica, contudo, justifica tal irresponsabilidade, pois a Embrapa é uma empresa de pesquisa agrícola e, sem entender o padrão recente de transformações produtivas, jamais se posicionará corretamente. Que fique claro, em letras maiúsculas: desconhecendo a rationale desse período de transformações sísmicas da agropecuária brasileira, a Embrapa está sumindo do mapa do setor, se tornando mais e mais irrelevante. Todos os indicadores sobre a depreciação de nossa Empresa estão escancarados à nossa frente. Será a razão, Senhor Presidente, que justifica a sua insistência monocórdica, para as audiências externas, sobre uma hipotética “agricultura do futuro”?

Concluo com a pergunta que não me cala, com sinceridade. Sendo o Senhor uma pessoa ainda relativamente jovem, com anos à frente, já tendo assumido posições destacadas, sendo o mais longevo presidente da Embrapa, qual o legado que pretende deixar? Como o dirigente que nos levou a uma situação irreversível de derrocada institucional? A Embrapa não será extinta e, menos ainda, privatizada, não é esta a prática do Estado brasileiro. Mas será abandonada ao seu definhamento institucional e à consequente degradação interna. É essa a herança que pretende ter associada ao seu nome?

A recente proposta de revisão das estruturas demonstra cabalmente o estado de confusão interna em que estamos, pois nada produzirá de efeitos benéficos. Como na famosa frase, é “mudar para não mudar”, qualquer um de nós sabe disso muito bem. E o essencial e mais urgente, que é a falta de estratégia da Empresa, será enfrentada quando? Nosso transatlântico continuará à deriva?

Adiciono um pedido, Senhor Presidente. Encareço que deixe de insistir que, “sim, temos estratégia”, a qual seria refletida em documentos como o “Visão” ou, então, o “Plano Gerencial”. Todos nós sabemos que são peças ficcionais, que comentam sobre assuntos imaginários. Produz apenas constrangimento, toda vez que essas menções são enfatizadas. Precisamos reintroduzir o máximo rigor analítico, como o nosso exclusivo princípio orientador, pois mistificações não nos servem como rota institucional.

“Vícios de outrora, costumes de hoje”, na famosa frase dos antigos. Seria esta uma danação humana que também condena a Embrapa à inutilidade ou ao seu futuro desaparecimento?

Mantenho a expectativa, Senhor Presidente, que receba construtivamente as considerações acima, pois assim foram escritas. Sou um leal empregado da Embrapa e me orgulho de minha longa trajetória como servidor público. E estou convencido que todos os empregados anseiam se engajar com entusiasmo no processo de “refundação da Embrapa”, pois é o nosso sonho. Nenhum de nós tem a mais remota intenção de afrontar a Presidência ou o seu papel de dirigente maior.

Mas, para existir algum avanço, é preciso corajosa disposição (e serena humildade) para confrontar o mundo real – este é o incontornável ponto de partida, não existe outro.

Cordialmente,

Zander Navarro, pesquisador da Embrapa – Secretaria de Inteligência e Macroestratégia

Fonte: PED

21:08:30

2017-10-19

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